Canela de Verso e Prosa Pela Estrada


SOBRE PÉTALA E RIO

A marca d´água impressa na folha do caderno repousante sob o livro, rende em si um único dito: lágrima em pétala. Com toda a delicadeza, expressividade e vida, cabíveis dentro da representação de uma flor, miúdo seria ter-me lida com a lágrima com o quê do triste ou da alegria, apenas. A água que escorregara dos olhos ondulando o pedaço da folha, que hoje reflete o instante vivido do choro, e por agora tem sua parte de linhas escrita pelo rumo da caneta sobre pensamentos, é, simplesmente, assim mesmo despretensiosa, humana. Sou, em minha própria receita, essa mistura de ingredientes, em quantidades não medíveis. Da lágrima, a pétala. Do rio, o florescimento. Do tempo de apenas saber-me dentro das paredes da semente, levo a querência, a sede em fluxo da seiva do por vir, a espera desaninhada do abraço da terra. A solidão nos sentidos, por vezes, me fizera voar lágrima sobre deserto. Da descoberta do efeito do dedilhar dos raios solares, o render tudo contrário à natureza, abriu das certezas, feito pétala a pétala, a importância da entrega ao fluxo, do fazer-me percurso. Até hoje, quando águo, nada me resume a uma mera circunstância, nem meu choro a um tipo; independente de um sentimento restrito, há um pedido silencioso de amparo, e uma força bruta a sustentar-me sozinha. Flor andarilha, rio de pétalas, madeira velha vergada que ainda assim ao céu cresce, broto recém esverdeado curioso na flor a ser dada... naturais águas minhas.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 18h10
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"Por que a poesia tem que se confinar?

às paredes de dentro da vulva do poema?"

(Wally Salomão)

RECITA-LÁ CHAMA-DÁ

 De de repentes são feitos os relâmpagos dos encontros de dentro. Há tanto nessa vida que por mais que se seja escorregadio, por tanto de obstáculos dos ventos do caminho, inevitavelmente, em algum ponto, uma chama puxa e traga, e se consome se incendiando... e em brasa assim se alimenta e cresce feito fogo iluminando as paredes de dentro, a dizer sorrateiro: agora você não me escapa, queimei tudo para te abrir o caminho, trata de desbravar a andança.

Foi algo desse tipo o ocorrido da semana. É quando a Vida, sim, com maiúscula, te pega pelos cabelos, te arrasta até o espelho, e diz: vê bem, palpa, tá pulsando? então, mocinha, tô aqui te chamando. Quem vai recusar a dança? Confesso, sou dessas com tendências e impulso ao front. Também confesso, já trilhei trilhas tão distantes a ponto de por tempos seguir surda. Quais serão os próximos passos? Eu juro, feito criança atenta e querente, escuto! Não nasci para o encerramento das torres... aonde convocar a pulsação destemperada e deliciosa dos sentidos, agora vou entreguemente parida. Pode me chamar... já me coloquei a caminho.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 15h52
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SAI PRA LÁ SEM ZZZ

Dona das minhas caraminholas e pestanas,

teria como, por um tantinho, desligar de mim?

Atravessa minha cama acendendo a noite,

pouco me descansa, me levanta as cinco.

Olha, Insônia, pro carnaval ainda falta...

mas você no esquenta vem com bumbo,

trombeta, zabumba, tamborim e a trupe inteira

saracotear na minha cabeça.

E cá te pergunto: e os neurônios vizinhos,

a musculatura retorcida e as tarefas dos dias?

Ficou sem cabimento! Tudo bem, sei da sua paixão por mim

de outros tempos... aqueles cansadinhos e entristecidos

contigo no meu pé e ao pé do ouvido, me remoendo...

Mas agora?! Tanta alegria junto também te chama?

Faz favor, Dona, vai fazer estrondo em outra banda,

devolve meu sono e aconchego! Meu fevereiro é a todo tempo,

e nesse agora não combina seu desafino.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 04h53
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BOM DIA

Te conheço. Não te conheço? Como seriam os movimentos dos seus jeitos? A fala do olhar? A maneira da mão segurando uma caneta? A cada palavra bordada, cada passo de linha, mais me indago. Vira e mexe digo: Loucura! Logo depois me desdigo: Se o mundo fosse apenas de loucuras boas assim, seria um jardim de alegria. Mas, confesso, não tento criá-lo ou recriá-lo, não te invento; busco a forma no que chega, tento abrir a bruma. Talvez por isso, talvez pela abertura dos e aos sentidos, agora, essa manhã, entre olhos meio se abrindo e espreguiçamentos, você presente. Sim, estranha e adoravelmente uma presença. Sim, feito alucinação o desenho do sorriso, os ares envolvendo. Te conheço. Caduquice divina. Fico aqui pescando impressões, guardando a sensação de um senhor abstrato a escrever um livro, e nós lá, personagens dele. Qual será a sinopse? Não te conheço conhecendo. Bem lá de dentro um sorriso que amanhece e transborda pelo convite ao mergulho das trocas, por esse pareamento de ser. E, inevitavelmente, a vontade no dizer-te: Bom dia.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 14h28
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DEIXA MEU FIO BRANCO NO LUGAR

Ó, faz favor! Que olho cumprido é esse?

E esse dedo meio metido curioso em pinça?

E essa fala fuxiqueira certeira pra minha cabeça:

- Poeta, cresceu cabelo branco em seu couro pensante?!

Nasceu! Nasceu sim. Foi descoberto no espelho do trabalho

e por mim! Até estava demorando a dar o ar da graça,

não é bonitinho?

- Alguém precisa ir à farmácia... Alguém vai usar tinta!

Tinta? Para dois três fios aparecidos em pleno rumo

aos 28 tempos percorridos? Com todo esse meu ar de meninice?

- Ah! Alguém vai arrancar cabelo escondido!

Arrancar? Meus preciosos fiozinhos prateados? Tem tanto sentido!

E todo o tempo de cabelos podados ao ombro, sofridos ao vencer o limite,

que agora se libertam no cumprimento esvoaçante das costas?

É, esse tempo de suor, desencontro e conquista, dessa

busca voraz e inquieta da expansão. Cada fio é precioso

como cada descoberta feita! Todos juntos falam e enfeitam

o caminho dos alinhos e desalinhos. Retratam essa que me tornei.

Antes, pequeninos, enfraquecidos pelos cortes das perdas.

Hoje, longos, como pede a natureza da força minha. Até os tranço!

- Então, a poeta quer ficar com cara de velha?

Velha? Valha-me Deus! A moça aqui não tem medo

de ser menina crescida, nem vergonha das notas da escola dos dias.

E se isso for considerado esquisitice de poeta,

quem não pensa ou não vê com sentimento deveria ficar careca.

Faz favor, tira esses dedos e conselhos estranhos da minha cabeça!

Deixa em paz e em seu devido lugar meus fios brancos! Gosto deles.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 13h44
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"como castelos nascem dos sonhos

pra no real achar seu lugar

como se faz com todo cuidado

a pipa que precisa voar"

(Oswaldo Montenegro)

 Amanhecer, ser amanhecida, se amanhecer. O fio do sol sopra, toca os sentidos, acorda do sono do ratatá do café com leite coberto do véu do não saber poder tornar-se capuccino. A canela anuncia na língua as possibilidades dos temperos. Se cada um é um, se um é unicamente um, então cada gole é mergulho à descoberta de ilhas desconhecidas. Desilhar é desvendar mapas, inventar rotas, construir pontes. Vai cada um de seu canto, depois de compreender-se inteiro em sua terra, segue com as sementes de dentro na busca a fora... no meio do caminho: o ponto do encontro. Mistério. Não são núcleos de novela, são escritos do tempo, esse senhor de brancas teias nada lineares, o autor da voz de cada despertar. Ouvir o que convoca é livre escolha. Arriscar a combinação dos sabores é coragem. Passa a haver uma festa todo santo dia, todo dia faz-se santo. Beber de si, dar-se como bebida, beber do outro bebida. Fazer acontecer tem das permissões de erguer sonhos, dar linha na pipa, sagrar divino ter nascido.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 12h40
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 Entre-Calos-Descalçados

"a gente ria tanto

desses nossos desencontros

mas você passou do ponto

e agora eu já não sei mais

eu quero paz"

Marcelo Camelo

 Desta vez, diferente de todas as outras, ali, sentada na murada respirando os ares marítmos da orla, veio a palavra paz. Os pés balançavam no ar, o vento não deixava um fio de cabelo ajeitado. Descansados os óculos escuros no peito, fechados os olhos para sentir melhor as sensações do corpo, veio o pensamento: calos calados. O mar bate nas pedras, arrasta pedaços soltos, entra um barco vindo do horizonte. Na proa a calma escrita: Bom Tempo. O peito respira, a água lava dores. O ronco das ondas na pedra é sono incômodo, desencontro. A dobra do mar na areia, encontro. Quanto desacerto de ponto margeia, e bem no meio o porto certo. Quanto tanto de água que não cansa, e em tentativas tantas algo chega. O homem é igualzinho assim ao mar... desencontra nas pedras, quase guerreia, volve-se para lá, volve-se para cá, em um ponto encontra a areia, em outro desenha o horizonte. Se pensasse só nos desencontros cansava com certeza, ou ficaria teimoso se doendo e repetindo: tanto bate até que fura. Mas é de tanto desencontro assim que se expande e encontra. Deixar que tudo passe é pôr-se a passar, passava esse pensamento. Movimento, tempo, movimento, tempo, movimento, tempo.Cabelos esvoaçados, olhos ao peito bem abertos. Roupas entregues ao mar. Deixados os calos nas pedras. Os pés dançam na areia.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 20h33
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Entre-Calos-(In)caláveis 3

O Homem Público N. 1

Tarde aprendi
bom mesmo 
é dar a alma como lavada.
Não há razão 
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita 
que vai sendo cortada
deixando uma sombra 
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

Ana C. 

 Quantas mil vezes uma pessoa dá chance a ser ouvida? E a ouvir? Não no sentido rotineiro sobre isto ou aquilo, mas nas dimensões do ser. Sim, os limites da paciência são tão relativos... do cansaço, então, nem se diz. Se o velho nada mais veste, e o novo bate à porta do armário. Se o velho impõe suas formas ditadoras (ditos de dores), e o novo envia convites de libertações (libertas ações). Se o velho age no escuro, e o novo dá a cara à coragem. Se o velho jamais deu-se a realizações. Se o novo é o realizar em si. Quem irá trair o novo? Eu não.

Mas os que se apoiam no ruinoso por simples preconceito ou medo aprovam quem escolhe o novo? Em um geral não. Então esses nada sabem do novo, do gosto do novo, das surpresas do novo? Não. Qual o formato do velho? Pseudo-Padrão. E do novo? Feito a mão para cada um. Quando se escolhe o novo? Quando nada mais do velho serve, alegra, ou mesmo faz algum sentido. Mas não há uma relação de equilíbrio entre os dois? Utopia, o velho não escuta o novo, e o novo não aceita ditos.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 20h01
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*

Se o amor se encontra amando? Deram de ficar repetindo: Ah, mas para estar bonita assim tem que estar apaixonada! Faço graça, charme, mistério e tudo mais em resposta. Embora nada a esconder. Na verdade poupo o outro da ilusão, não a vendo. Mas de onde eu tiraria o direito de dizer estarem enganados? Amar sempre fora meio reino... e nessas terras de cá os significados são diversos, não se compra em latas.

*

Tomada a decisão: já não termino correspodências com a abreviação "bjs". Há um quê preferencial em escrever letra a letra a palavra Beijos, iniciada com maiúscula, claro.

*

A poeta aqui é bicho das metáforas, toma banho de chuva, canta no chuveiro, bebe vinho entre linhas e cobertas... nasceu irremediavelmente apaixonada. Então, vamos assim à vida... militância pela loucaragem!... Valha-me Deus! Sejamos profanamente sagrados, sagremos o dia-a-dia, tiremos do pedestal o julgamento profano... Enquanto a defesa civil se diz em alerta com a chuva na cidade, defendemos cada um o próprio barco. Vida é isso? Com licença, meu alerta pediu que fosse ali, através de pântanos, remar junto, transpor pedras...



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 10h59
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