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Beijo de rio e mar, encontro das águas. Banhar-se nem sempre significa limpar... tantas possibilidades residem na simplicidade desse verbo. Dá a mão ao fluir. Esparrama entrega. Alquimiza. Abre os poros dos sentidos. A tendência às muralhas nas conceituações semânticas apequenam o ser humano, que deveria chamar-se, nada à parte, natureza. Ser natural. Ser em si mesmo.
Diga-me, aonde se vai no corre-corre se nem mesmo uma quebra de onda se supõe prestes a beijar a areia? E os desvios dos cursos doces, em algum momento se acreditam rumo à imensidão do oceano? Liberto-me das margens, escolho confluências. Não vejo no sol nem na lua qualquer tic-tac, apenas iluminações complementares. Deito n´águas. A música do fluir toca meu corpo.
Inteiro é um grão de areia. Areia não pode ser restrita à deserto; além, tem da leveza de transportar-se por ventos e brisas. Grão leva a fertilidade do que floresce ou alimenta. Água é percurso, cupido de inteiros. Entre sal e doce, a convergência dos sabores no integrar-se. Banhar-se em beijo. Beijo entre naturezas.
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 18h48
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RETICÊNCIAS N´ÁGUAS
Tempo só de dizer
lhe escrevo sempre no pensamento.
E reescrevo nas linhas dentro das suas letras
o percurso dos dedos mapeando caminho
- o pensar deságua pelo remo dos quereres.
Desse lado da praia, pescando seus ares,
traço rotas na areia. Dissolvo a pequeneza das margens,
acendo sol no farol do sentir (que te guie).
Sopram ventos em carinho...
enquanto me escrevo
te chego
- mesmo em pensar, mesmo todo dia.
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 23h47
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DA RAIZ À COPA
No pátio do meu colégio tinha um bambuzal. Tinha não, até aonde me vai o conhecimento ainda existe por lá... embora não possa garantir por já há muitos anos ter cruzado os portões para o mundo e nunca mais retornado. Quando bem pequena, brincava de me esconder, atravessando a pequena trilha por seu meio, minha floresta mágica gigante e pequenina. Um pouco maior, era o pique-pega e o pique-esconde. Maiorzinha, a corrida de bater nos meninos... sim, bater; nós meninas adorávamos estapeá-los, embora alguns poucos conseguissem nos escapar pelos bambus, e não pela imensidão de areia do pátio. Como meninas e meninos crescem, e naturalmente pulsam os olhinhos aos pares, mais um pouco à frente no tempo, o bambuzal tornou-se refúgio feminino de confidências do "gostar do". Mais tarde, como tudo na natureza une e integra, veio a ser o espaço do todos juntos, prosas e mais prosas observando o azul do céu, rodinhas de violão, descobertas dos hormônios, dos significados, e dos olhos.
Posso com toda certeza dizer: há muito daquele bambuzal e seu barulho de paz reboliçante ao vento em mim. Das recordações significantes, o envolvimento com a poesia, falas afetivas, sonhos germinados... desde lá a tal língua da arte formando elos, inspirando encontros, movendo buscas. Também posso reconhecer, com certa vergonha, ter passado tempos perdida da minha essência bambulina. Mas foi o libertar-me das grades mundanas que me trouxera de volta aquilo que naquele tempo já era o pulso da minha seiva. Justamente por agora, com a fé turva e pouca visibilidade sobre os caminhos, com tantos ventos soprando e uma única certeza ao peito, a vida, arteira que só ela, como quem rega um bambuzinho resistente ao abandono, deu-me um reencontro. Ser puro, doce e fluido, adulto, é da arte de ser bambu.
No pátio da minha vida tem um bambuzal. Cada toque entre folhagens é expansão dos sentidos. Raízes se encontram na terra criando espaço de laços sem pré-formas a se identificarem em pertencimento. Um vento sopra de lá, outro vento sopra de cá, encontro. Renascimento. Brincar de se permitir. Receber trilha do viver. Parear gostares. Fortalecer significados entre olhos... flores-crescer. Integrar-se à natural natureza a que se veio. Escola do pátio do livre ser em encontro. Gigante floresta das pequeninas descobertas mágicas.
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 15h28
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Entre Chá de Camomila com Erva Doce e Pés de Páginas:
Fragmentos Rejunte

"Buscava alcançar uma sintonia entre o espetáculo movimentado do mundo, ora dramático ora grotesco, e o ritmo interior picaresco e aventuroso que me levava a escrever. Logo me dei conta de que entre os fatos da vida, que deviam ser minha matéria-prima, e um estilo que eu desejava ágil, impetuoso, cortante, havia uma diferença que eu tinha cada vez mais dificuldade de superar. Talvez que só então estivesse descobrindo o pesadume, a inércia, a opacidade do mundo - qualidades que se aderem logo à escrita, quando não encontramos um meio de fugir a elas.
Às vezes, o mundo inteiro me parecia transformado em pedra: mais ou menos avançada segundo as pessoas e os lugares, essa lenta petrificação não poupava nenhum aspecto da vida. Como se ninguém pudesse escapar ao olhar inexorável da Medusa.
O único herói capaz de decepar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com sandálias aladas; Perseu, que não volta jamais a olhar para a face de Górgona, mas apenas para a imagem que vê refletida em seu escudo de bronze. Eis que Perseu vem ao meu socorro até mesmo agora, quando já me sentia capturar pela mordaça de pedra - como acontece toda vez que tento uma evocação histórico-autobiográfica. Melhor deixar que meu discurso se elabore com as imagens da mitologia. Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento; e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho. Sou tentado de repente a encontrar nesse mito uma alegoria da relação do poeta com o mundo, uma lição do processo de continuar escrevendo."
"Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação"
"(...) o conhecimento do mundo é a dissolução de sua compacidade"
"(...) a leveza é algo que se cria no processo de escrever, com os meios linguísticos próprios do poeta, independentemente da doutrina filosófica que este pretenda seguir."
Italo Cavino, Seis propostas para o próximo milênio
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 01h35
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Tudo fazia-se aviso: revelações a caminho. Mas nada lembrava: revelações vêm por encontros. Encontros são caminhos, essa é a verdade. Quanta autenticidade supõe ter a vida? O dia que algo for, de fato, por acaso, talvez seja preciso nascer de novo...
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 17h38
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BOTANA
Não tenho a ousadia de dizer-me grande,
sou pequenininha do tamanho de um botão.
Se o desejo é crescer e vir a ser gigante?
Também não sinto ser desses requintes.
Mas, verdade seja clara, como semente
que me entendo, me seria ouro germinar-me.
- Pecados sagrados da natureza, transgressões humanas demasiadas.
Sei... Essa luxúria é tão esquisita, essa gula é tão desatinada,
que dá da ira a mais invocada
pensar do risco de viver à margem, esquecida.
Quem sabe um anjo, é, desses bem romanceados,
veja em minha pequenez uma giganteza?
Quem sabe deus vestido mesmo de diabo
me sopre as velas sobre águas realizáveis?
Aceitarei botão a costura das linhas.
Aceitarei de coração ser encontrada.
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 13h48
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POR HERMES ENTRE LINHAS
Que a luz do fio que conduz
não recue ao escuro
ou ao mero passo da dúvida,
e dentro daquilo escrito na história de dentro
sempre me lembre:
linhas minhas, linhas tuas.
Que não mingue à prova
a força feijão com arroz de sempre,
o leite sustento da vida,
no colo órfão sozinho das horas.
Cada gene carícias da infância
carrega a medida a que se veio.
Cabe, apenas, esse se desdobrar,
o fazer o que se é, seguir labirintos,
encontrar chaves e portas...
O resto, simplesmente,
é das linhas do Tempo.
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 18h53
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EM BRASA
Ardem os olhos
em certezas incertas
e incertezas certas.
Queimam como tudo a chama
dos batimentos de dentro
e das batidas de fora.
Tantos caminhos em malabarismos,
nada revela a precisão das horas
aonde tudo é chama que chama,
aonde tudo é chamado e brasa
e por queimar-se em tudo é nada
e nada é o simples princípio do tudo.
Essa arte de arder é incendiária,
sol d´água que derrama, inflama,
fogueira de oceano sem beira.
Meus olhos ardem...
brasa de flores brotadas da vontade.
Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 00h29
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