Canela de Verso e Prosa Pela Estrada


Algo se processa. A paz estranha no caminho do trabalho, relances de imagens da memória pelo transporte subterrâneo, brincando de mosaico das vivências. Uma gratidão perdoante, um perdão grato, e essa compreensão silenciosa. Repentes de amorosidades por rastros, por suas existências mesmo que dolorosas ou decepcionantes. O pensamento visitante, olhando nos olhos das fotos: ah, por que dar à vida as faces das mortes? Algo se processa, pequenos milagres, orvalhos nos passos... e essa natureza de ir à fala, de querer pontes em trocas, leva à escrita, diz de mim na palavra.

Algo se processa. E parece inevitável. Chega a irmã com uma sacola de vestígios esquecidos na casa dos pais, ocupando seu espaço de armário, coisas minhas, só minhas, deixadas não desfeitas e guardadas:

- Cris, se você quer ter guardados, você vai precisar de tempos em tempos olhar para saber se ainda quer contigo. Vai ter que ter cuidado para levar, escolher. É seu.

 Não ter a menor censura, de entre minhas quatro paredes por mim pintadas, sentar no chão de sinteco velho, abrir o berreiro, tendo tempos tão diversos manuseados pelos dedos. Roupas de dança ainda exalando palco e sapatilha. Um bilhete deixado à porta da sala do hospital, já com seus 5 ou 6 anos de idade, cheio de agradecimento nas linhas, marca de longas labutas no fio equilibrista da bioética. Negativos de uma época em que fotos jamais se suporiam digitais um dia. Orações da avó. Foto do avô. Oração da tia avó. Bilhete de amiga da faculdade. Uma poesia sem dedicatória nem data, que na forma posta no papel indicam o momento e o endereçado. Um cartão de natal com letras recém alfabetizadas da primeira menininha que atendi, hoje uma provável crescida moçinha. Paparicos da irmã.

 Nenhuma água nos olhos por dor, nenhum lagrimar por saudade... chuva apenas de compreensão, chuva grata por um saber já não é de hoje buscado. Pequenos milagres. Algo que se processa. Em qualquer outra época, me deparando com coisas assim, a farpa do humor recitaria: "Vou-me embora para Pasárgada". Não, não preciso ser amiga do Rei, e se for, não há no que diferenciá-lo. Também já não preciso da "pausa de mil compassos", a música que tanto cantarolei, "paz, eu quero paz", resolveu ser atendida no contratempo máximo da desistência.

Um milagre se processa. Não o festejo, quero apenas recebê-lo com a calma de quem teve a alma lavada pelo orvalho. Alguns não ditos para pedras no caminho, já de temporais caminhados na garganta, perderam a importância. Ah, Quintana, "eu passarinho". Há anos e anos que qualquer chuvinha no Rio que entorna frio na pele me desagasalha desconfortável... e bem agora, bem nesse verão quase desértico, uma estrofe climática trazendo a surpresa: tudo confortável, mesmo que a vida não pare, não mais me desamparo.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 14h41
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 DESENTRANHAMENTOS

Estão lá as ruas, os prédios, o comércio,

a barulheira infantil dos fundos do colégio,

as mesmas pedrinhas portuguesas

descobertas por meus passinhos bem pequenina.

A floricultura na rua do ballet ainda cheia de rosas vermelhas.

O antigo porteiro na mesma tão atravessada portaria.

 

Reformaram a papelaria do primeiro caderno

e a sapataria dos tênis vermelhos,

o laguinho das vitórias régias anda seco,

a vendinha chinesa foi vendida.

A janela sempre meia aberta da tia avó fechada,

contam o novo proprietário nunca ter habitado.

A avó do melhor amigo ainda mora no mesmo lugar,

o que acalma o coração de quem já perdeu a sua.

 

 Alguns lugares não são meras geografias,

alguns momentos da vida me param feito pedra no caminho...

é preciso revisitar a memória,

atualizar sua demografia.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 09h59
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ENTRE PAPIRO E BARRO, LINHA E MADEIRA

Por tantas vezes tive a sensação de haver a cima de toda a vida, regendo todo respiro de existência, um escritor sábio, dotado de artimanhas com as linhas. Inevitável, por agora uma outra imagem: um artesão. Sim, um artesão. Enquanto teria o escritor mãos finas com toques brutos, teria o artesão mãos brutas com toques finos. Um olhando a tudo da prateleira mais alta dos redemoinhos das páginas em vento; outro, com os olhos próximos à matéria buscando o encontro das formas que ainda não se encontram lá. Um, soprando tempo; outro, tragando essência. Em comum, alquimistas. Transmutadores da criação, masculinos em útero, promessas de bons partos.

Se o escritor teria pés alados, o artesão guardaria em si a composição das pegadas. Enquanto um se debruça no suor mental da vaporeza das palavras, o outro curva-se aos talhos e manuseios da beleza. Seriam ambos fiéis da divindade Aprendizado, embora mestre e aprendiz sejam características tão mutáveis a ponto de não poder dar-lhes dissociadas. Não, não vou fundi-los. Nada de inventar escritor-artesão ou artesão-escritor; além de soar romanesca a idéia, seria um desperdício bruto por uma fineza, e um desrespeito fútil. Também não percebo indícios ou deveres quanto a escolher entre um e outro. E como não gosto do lugar do ficar a mercê, me coloco entre suas mãos, olhos, pés e pegadas como alvo de uma longa conquista.

Vejamos quem me faz a personagem ou a matéria melhor trabalhada...



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 09h56
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Ano Novo.

Nada de revisões ou listas,

nudez dos aparatos e alegorias.

Abertos poros da pele dos sentidos,

escama das asas em mergulho alto

no ponto zero fogos na partida.

Calendário Novo.

Metamorfoses nas raízes

e uma compreensão silenciosa

fia a frente desatando âncoras e tintas.

Novo novo.

Nada se sótãos. Nem torres. Nem masmorras.

Dissolução dos porões movediços, seculares vendas desfiam.

Aberto tempo em alinho ao abrir dos olhos,

abrir à leveza que a tudo e nada sustenta

no ser consigo, ser em si,

o que principia a vida. 



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 11h58
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