Canela de Verso e Prosa Pela Estrada


DESMITO

Sem muitas rédeas nem rodeios

deixe-me cá com minhas verdades.

Não falseio mantras de liberdade:

já não há qualquer fantasia bastarda,

nem métricas discursivas encantadas.

 

Esses que me despeço com alívio,

já vão tarde? Os poucos que interessam, e ficam,

chegam na hora exata. Para viver sem nojo e

sem conversão da beleza em piada,

só com sarcasmo poético... Não domo reversos,

escolho os versos que me domam:

dona do íntimo das minhas entradas.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 14h32
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RISCOS LITORÂNEOS

1

Por vezes me confundo na dúvida; passam as pessoas, jorram histórias e rostos: escrevo ou fotografo? Os ambulantes e suas vozes na praia, os da terra e os turistas, falas e pegadas; gente que converge por ser gente, gente que diverge pelas vivências. Fotografo escrevendo, escrevo fotografias, retino fotos escritas. Alguém me capta na retina?

Um francês puxa dedo de prosa com seu português enrolado. O motivo? Meu Baudelaire folheado na areia. Ele arrisca avaliar a tradução do livro. Eu arrisco avaliar a tradução do seu contato. Aparentemente uma única coisa em comum: presos livres.

Não sei se falo essa língua do mundo. Talvez por isso precise reter impressões em fotografias. Talvez por isso só me encontre na escrita. Mas a vida, desde a Revolução Francesa, está mais para Luz, Câmera, Ação. Hollywood que me perdoe, mas o mar de gente é sertão; roteiro veredas.

2

Preciso urgente aprender francês... e ir à Espanha. Mas o mais provável: morra no Rio de Janeiro, colecione livros em inglês, me alimente do desejo de conhecer a India.

Minhas traduções são por demais subjetivas. E a queda por Clarice e Borges parece um risco de vida. O mar bate anunciando ressaca, obriga a não serem fixas as cangas, cadeiras, barracas; pombos ciscam; uma praia inteira segura o xixi.

Linguagem é uma urgência perigosa. Meu escrever naturalmente revolve-se numa estranha metamorfose. Até os deuses se indagam sobre o baralho das minhas linhas. Rabisco meus catarros nesse caderninho que levo à bolsa em silêncio. Logo ali, meu vizinho francês de areia solta a mão empunhando uma caneta sobre folhas bagunçadas.

Um pensar em Nietzsche me salva... humano, demasiadamente humano. Mas a solução ainda se encontra na boca de Oswald de Andrade. Cantarolo para dentro... vamos comer Caetano...



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 20h04
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CART-A-RTE AO SOPHISMO DE DENISE

Amiga irmã dos elos,

Pensei primeiro em te escrever um email, mas assim como pseudônimos nos sintonizam como criadoras, e metáforas são meu vício, recusei o risco de ser distante no tempo de ser pessoalmente humana. Pensei, então, em ligar imediatamente, mas sabendo dos tempos que no agora voam em correria, e nos conhecendo bem nas prosas longamente inteiras, recusei o risco do relógio soar como edições e cortes... falar de novos ciclos não pode ser ao meio. Cheguei mesmo ao impulso de pegar papel de carta, coisa bem de mocinha em seus inícios, e cobrir as linhas com letras coloridas; mas o correio, que funciona num tempo lento perto desse nosso de hoje de muitos anos em um dia, me fez não querer, mais uma vez, o risco de chegar tarde. Abri, como meio, essa janela do meu blog; afinal, sua amizade me compõe a estrada; para te falar, bem desse jeito que a vida tem nos feito. Troca.

Há poucos dias escrevi sobre o fim dos fins; há alguns meses atrás, quando luz se ausentava em um capuccino em Paraty, falávamos sobre intuições e mudanças; há um tempo que não sei contar, quando nos conhecemos naquele café na madrugada, estava eu por volta do meio do início dos fins. Hoje, ao te ler numa fotografia, estava lá você, feito sincronia da existência, em despreendimento das pegadas-casulos-passados, exercitando a sabedoria do liberar-se ao novo. Asas.

Sabe, ciclos me parecem tangências incalculáveis, aonde o Tempo, senhor das longas barbas acompanhado por tecelãs, já virara o personagem mais mexido e remexido das prosas das minhas histórias. Eu sei... o mundo a cada dia dá mais a impressão de estar fora de órbita, peneiras deram de marcar o reino dos afetos, transformações puxam transformações que puxam transformações, às vezes se parece viver à flor da pele, noutras um pedido poupante interno de distanciamento do peso que encobre escolhas da gente e dos outros soa feito alerta, vidros quebram tirando a possibilidade dos reencaixes, descobertas de belezas raras colam feito mão e luva dando, a quem vem de um mar em redemoinhos, uma importância maior à seletividade do cultivo. Parece mesmo não haver hora para a calma, brecha para a paciência, e talvez isso ajude, por mais denso que pareça, a um não agarrar-se as margens do rio. Libertações.

Sendo bem clichê, fico me repetindo: fins são novos começos. Andei numa sede danada de inícios, um cansaço sem fé sobre fins, olhando bifurcações, sentido uma tristeza doída sobre perdas de magia na realidade. Alguns vão dizer ser isso simplesmente amadurecimento; outros, de espiritualidade alta, falarão sobre transição planetária, queda das máscaras, ceifa superior do joio e do trigo; astrólogos compreenderiam como processo dos passos ao primeiro retorno de saturno; escritores, contemporâneos que só, refletiriam prosas e prosas introspectivas. Eu, particularmente, por pouco ou muito apetite, bateria tudo isso num liquidificador, e acrescentaria: coragem para ir de encontro ao que identifica.

Te escrevo por isso... por admiração e carinho... identificação e parceria... por uma necessidade visceral em te dizer, que não só me sinto vivendo a mesma maré rumo ao novo ciclo, como por bem-querer da beleza da arte do seu sophismo, há aqui um te refletir a fé na amizade para remar barcos e léguas. Hoje não me importam os quantos, mas os quens; não me valem as podas, mas as sementes; tantos sejam os discursos, prefiro as atitudes; sejam lá quais forem as explicações, significados e sentidos, o que a vida me trouxe a partir do seu olhar de irmandade levo como benção ao novo início. Abertura de ciclos, voemos.

Elo em abraço de asas,

C. 



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 10h50
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 SOM DO TATO

Encontram bocas, acendem mistérios,

despidos panos, entrelaçados dedos.

Integrar cheiros em semear pele.

Entre pernas, umbigos, braços,

há o instante do ultrapassar desejos

- mútuo da entrega.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 00h03
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 ENQUANTO RESPIRAR

Fim dos fins. Em plena fuga de mim mesma, um dia, logo ali atrás, roubaram-me os documentos. Furto noturno, rotineiro na cidade, mas pontual na necessidade de me levar ao vácuo do vazio da correria do refazer-me. Um perder tudo pode mesmo ser um ganho de si, clichês a parte que me perdoem. E de repente um furacão inescapável de se rever, e nesse rever: o nu extremo. Turbilhão. Fim dos fins.

Início de mim. Respirar em paz livre do caos, identidade impressa a brasa, inscrita nos olhos, liberta dos loopings das quebras. Aquela fragilidade que a tudo ventava, e por dentro girava redemoinhos vulneráveis, estiou. Por fim, a retomada da sensibilidade nata, poética e prosaica, o gosto afetivo da troca, uma fé que não rege fora, mas dentro.

A certeza única de, enquanto respirar, ser da natureza os encaixes, a permissão da diferença. Ser para ser do jeito que se é, distraída dos formatos, alheia as precisões dos que querem a vida entre os dedos. Estrangeira, incasavelmente, em mim mesma... de encontro ao porto dos mistérios de um chegar o que toca e rege a natureza.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 10h18
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MARESIA É MERCÚRIO ENTRE MAR E AR

Contam velhas bocas míticas, ser Mercúrio a possibilidade alada de transitar entre mundos e portar mensagens. Mas mercúrio também é palavra dada à substância de curar machucados. Sem endereço escrevo a endereçado. Já sem esperas ofereço um frasco do líquido, por carinho descuidado.

A moça aqui é feitura de mar, e dos maiores gostos é contemplar o horizonte. Mar é água salgada, assim como lágrima, mas sem beiras, com os perigos do envolver e levar. Horizonte é a linha sem limites, aonde projeto sonhos e limpo os olhos, e além, o encontro com o ar.

Um dia fui a menina que em segredo sonhou ser aeromoça, crescida me tornei a moça das metáforas dos vôos. O que fez-me filha dos mistérios das ondas, cega na busca do subir tanto mais alto; para assim, ter do horizonte outros ângulos; das águas, alargamento na alma; do ar, maiores descobertas das naturezas de seus raros-efeitos. Em síntese, é da veia a pulsação livre ao sentir. Nada me corta mais as asas, me despenca da afetividade ao afastamento, que não permissões ao viver, que limites de pouca fé na entrega, mesmo que na miúda ligeireza de um momento... seja isso qualidade ou defeito.

As velhas bocas míticas também contam sobre Perséfone, filha de divindade das colheitas, raptada por divindade dos subterrâneos. Primavera, Verão, Outono, Inverno... as estações na terra geradas por desacordos e acordos entre outros mundos. Perséfone, da pele clara, dos longos cabelos escuros, que migra entre polaridades, entre um amor materno e um amor sexual, por tempos caminhou a minha sombra como representação arquetípica dos meus passos. E, te confesso, no labirinto de dentro convém não andar descuidado. Por isso, depois de fazer-me, de fato, liberta dessa escuridão, da seca, dos espinhos, acariciei a sombra como quem parte sem precisar se despedir.

Deixo, então, por mar, pelo sopro do ar, um frasco. Nele o líquido do desejo de um destino não vaporoso, de colheitas em abundância, de ser só passageiro até encontrar o bem de um pouso, de que nenhum mito te aprisione, de que pesos dissolvam-se no horizonte.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 11h52
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 "O outro te revela", ecoa em bumbo a voz de uma mestra. Saudade de sentar meramente como aprendiz, olhos espichados, coração aberto às compreensões. Por vezes paro à beira do céu, escorrego ao inferno com os pensamentos; mas como disse-me especificamente certa vez a mesma mestra: evite as matemáticas, o sair em atitude por um melhor sempre te salvará. Jamais soube ser morna, nem tenho o intuito. Certa vez tive alguém ao lado que por anos era-me baldes em críticas; toda a minha graça, a intensidade, a liberdade e a poesia eram qualquer coisa de desmedida a tomar tesouradas. Tempos depois, ainda mais espontânea, arriscando novas estradas, uma ligação com o outro do outro lado e seu pedido de desculpas, desculpas pelas críticas, pelas farpas, e a revelação: sempre te admirei, agia mal por não saber ser como você.

Pessoas são diferentes, simplesmente. Em partes se identificam, em particularidades distoam. As tais escolhas, dentro de um recorte do tempo e como somatório de uma história, que revelam o que se tem de busca e de disponível. Não há no quê querer ser como, há apenas no reflexo um convite ao refletir, e, em seguida, mais escolhas. Às vezes, quando mais se acha inovando, se está repetindo. Às vezes, na repetição se chega ao ponto de ruptura. De lá para cá, não tenho mais a pacatez de sentar como aprendiz, a estrada acontece nas escolhas, delas um aprender nas consequências... tanto mais bifurco, mais descubro em outros as versões do que não me banha, tanto mais descubro a partir dos outros os graus do que me modifica: sou das temperaturas extremas, sou das cores fortes, apesar das aparências. 



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 11h13
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HUMANAL

Entre os que aprovam e os que desaprovam, não importa,

vale o que se é; e sendo, vive em acordo

com suas cores e movimentos. Goste quem gosta.

Já dizia o poeta da benção, a vida é uma só, companheiro,

e meus pés desde miudinhos vieram mesmo para sambar.

Não o samba anual, mero carnavalesco, mas

a folia festa nossa de todos os dias

no ir no cordão de um viver por inteiro,

fluir no tempo do bloco em passagem...

sem que chuva desfaça, sem que cinzas limitem.

Há de se saber permitir ir ao compasso,

ora seco, ora molhado,

ora espaçoso, ora tumultuado...

ninguém sabe a hora da hora que não mais se acorda

e para ter a paz do escrito na pedra:

aqui o vôo de quem por completo encontrou-se pássaro,

é preciso percurtir a voz do mestre de dentro:

ponha um pouco de amor em sua vida, como em seu samba.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 11h24
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