Canela de Verso e Prosa Pela Estrada


PARTIR: PARTO DO IR

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Agora lá !



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 09h10
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DADOS BROTADOS

Tudo bem, nasci em uma maternidade entre cruzamentos de largos asfaltos com meus pais economizando moedinhas. Passo por ali pelo menos toda semana, e toda semana na lentidão do engarrafamento a observo de fora; e não me diz nada, apenas que naquele ponto convém manter os vidros fechados. Tudo bem, sempre que preciso renascer, recarregar as baterias, ou respirar um pouquinho a leveza da existência, me aconchego nos lençóis do mato. Já não tenho vinte e pouquinhos, nesse percurso da minha segunda década que, já ou ainda, caminha aos portões da terceira, coisas bem certas foram mapeadas: o excesso urbano me desterra, não me faz o menor sentido certas linguagens da cidade, o simples me materna, sinceridade é honestidade consigo, minha fé tem uma casinha plantada na beira de um rio.

Parafraseando Leminski, haverá um dia em que todos os meus dias será roça de poesia. E entenda bem, roça no avesso do pejorativo, horta dos sentidos, paz de espírito. Brincando com a voz de Elis,

Vou compor uma casa

de bossas no campo

com livros amigos

e amigos de paz

. porque a vida precisa sim ter pé e cabeça, e o tudo bem de hoje pode ser a tentativa adaptativa, mas jamais a acomodação. Quatro dias entre mato, água doce, borboletas, passarinhos, histórias ouvidas de cada historinha de vida interiorana, de zum zum zum apenas de abelhas, sapo vigiando a porta, e cavalo branco livre pela estrada, me fizeram acordar espontaneamente as seis da manhã na cidadona por um simples canto de bem-te-vi. Mudança perceptiva, degustação sensorial. Minha maternidade fisicamente é mesmo aqui, inescapável; mas existencialmente fica lá: em vale entre montanhas, aonde valor humano é mina preservada, aonde todo encontro é pescaria de bem viver em si, linhas de sentidos gerais. 

SANTO RITO DAS PALAVRAS

1

João-de-barro. Estrada de barro. Panela de barro. Escultura de barro. Barro. Pés no barro. Chuva no barro. Flor no barro. Barro. Cor de barro. Cheiro de barro. Maleabilidade do barro. Barragem. O gado da vida pasta entre barros.

2

Mar de morros. A curiosidade escolar quando ouvida pela primeira vez a característica geográfica. O espanto da vastidão nos olhos quando de frente ao alto, sempre como se fosse pela primeira vez. A fonética forte. A sugestionabilidade poética na semântica. Morros em mar. Aonde se renasce toda vez, ao som, ao cheiro, à dimensão, ao horizonte... 

3

Não me venha falar que borboletas

são invenções de deus.

Os homens até podem ser.

Mas borboletas...?!

Só se forem do deus de deus.

4

O sentido das miudezas. As singelezas que atentam os sentidos. Ver a riqueza de uma pequeninice. Sentir a grandeza do que aos olhos, ou aos aromas, ou às contagens, parece bem pequenino. Desenganar os enganos. Pensar grande talvez seja um somatório de boas pequenezas.

5

Bom é assim: se aquecer nas redondezas de um forno a lenha, colocar na fiel panela velha todo o gosto das prosas. Permitir que os ingredientes das histórias se misturem. Mexer bem, até escuta e fala chegar ao ponto: troca. Para temperar, afeto colhido na horta.

6

É tudo muito mais simples

do que se inventou de viver.

Exigências de asfalto e placas,

buzinas de expectativas...

No interior, por exemplo,

quando se dá passagem na estrada de barro

se agradece olhando nos olhos entre janelas.

Psiu! Ouve o passarinho cá do lado!

Existir não é currículo.

 



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 09h10
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"Joga a trança, busca o chão e não o céu,

qual barquinho de papel sonha ir de encontro ao mar.

E a noite vem sendo o descanso do sol

E a ponte vem sendo a distância de quem tá só

um sol com a cabeça na lua,

a lua que gira, que gira, que gira só."

(O Teatro Mágico)

DOS FATOS DADOS

Tem jeito não. É a quebra do sotaque, o ar de mato, o abraço de montanha. Quantos anos fazem que pisei pela primeira vez naquela geografia? Os sentidos não contam, apenas falam de uma lua cheia de quase se tocar o céu, de um rio que refaz e perpassa fronteira... e um saber com alma: vou precisar sempre regressar sem jamais pré-dizer o quando; e se algum dia não mais existir este ir de volta, haverá ainda assim o levar dentro. Poucas coisas, coisas e espaços e pessoas muito raros, tem essa característica de encontro de dentro.

A mesma foto do túnel todas as idas registradas mais uma vez pede em urgência de paz ser feita. E feita será. E será pelos espelhos dos sentidos que essa moça que não é mais nenhuma daquelas outras fotografadas, e ainda assim é uma só, se verá no ir de encontro. Porque é preciso. Porque bicho do mato não pode viver muito tempo feito peixe fora d´água. Porque há no tempo um túnel atravessado na medida que é erguido aos passos... o túnel... o túnel. Quem de mim reconhecerei ali? Se há tristeza é outra, se há alegria é outra... mas os sonhos talvez ainda sejam os mesmos.

Tem jeito não... as tais Gerais guarda sempre mapas de Minas de mim mesma...



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 11h42
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SE PALAVRA É CORPO, SE CORPO A CORPO LAVRA,

É PRECISO EXTRAIR A ÁGUA E FOGO TODO O NÃO PALPÁVEL,

O NÃO PALATÁVEL, O NÃO GOZÁVEL DE VALOR MÚTUO,

O DOLOR E O IMPURO, O QUE APOEIRA POR DESMESURA.

ATÉ RESTAR A QUÍMICA DO TATO, E O GOSTO DA LÍNGUA,

O NATURAL ÀS COMBINAÇÕES GERMINÁVEIS.

LAVAR EM TEMPESTADE REMOVENDO ESPINHOS.

TALHAR SEM POUPAR AS MÃOS TODA FORMA BRUTA.

ARAR POR SÓIS E LUAS O SERTÃO DA PELE DAS LINHAS.

ATÉ NÃO RESTAR UM PARASITA NEM ERVA DANINHA,

ATÉ AMACIAR AO PREPARO DO NINHO, QUE AO ANINHAR NUTRE

E AO NUTRIR MULTIPLICA-SE NA TERRA DOS SENTIDOS.

SE PALAVRA É CORPO, LETRAS SE CASAM À FORMÁ-LAS

- CORPO A CORPO, A CORAGEM AO NOVO.



Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 13h19
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