
DADOS BROTADOS
Tudo bem, nasci em uma maternidade entre cruzamentos de largos asfaltos com meus pais economizando moedinhas. Passo por ali pelo menos toda semana, e toda semana na lentidão do engarrafamento a observo de fora; e não me diz nada, apenas que naquele ponto convém manter os vidros fechados. Tudo bem, sempre que preciso renascer, recarregar as baterias, ou respirar um pouquinho a leveza da existência, me aconchego nos lençóis do mato. Já não tenho vinte e pouquinhos, nesse percurso da minha segunda década que, já ou ainda, caminha aos portões da terceira, coisas bem certas foram mapeadas: o excesso urbano me desterra, não me faz o menor sentido certas linguagens da cidade, o simples me materna, sinceridade é honestidade consigo, minha fé tem uma casinha plantada na beira de um rio.
Parafraseando Leminski, haverá um dia em que todos os meus dias será roça de poesia. E entenda bem, roça no avesso do pejorativo, horta dos sentidos, paz de espírito. Brincando com a voz de Elis,
Vou compor uma casa
de bossas no campo
com livros amigos
e amigos de paz
. porque a vida precisa sim ter pé e cabeça, e o tudo bem de hoje pode ser a tentativa adaptativa, mas jamais a acomodação. Quatro dias entre mato, água doce, borboletas, passarinhos, histórias ouvidas de cada historinha de vida interiorana, de zum zum zum apenas de abelhas, sapo vigiando a porta, e cavalo branco livre pela estrada, me fizeram acordar espontaneamente as seis da manhã na cidadona por um simples canto de bem-te-vi. Mudança perceptiva, degustação sensorial. Minha maternidade fisicamente é mesmo aqui, inescapável; mas existencialmente fica lá: em vale entre montanhas, aonde valor humano é mina preservada, aonde todo encontro é pescaria de bem viver em si, linhas de sentidos gerais.

SANTO RITO DAS PALAVRAS
1
João-de-barro. Estrada de barro. Panela de barro. Escultura de barro. Barro. Pés no barro. Chuva no barro. Flor no barro. Barro. Cor de barro. Cheiro de barro. Maleabilidade do barro. Barragem. O gado da vida pasta entre barros.

2
Mar de morros. A curiosidade escolar quando ouvida pela primeira vez a característica geográfica. O espanto da vastidão nos olhos quando de frente ao alto, sempre como se fosse pela primeira vez. A fonética forte. A sugestionabilidade poética na semântica. Morros em mar. Aonde se renasce toda vez, ao som, ao cheiro, à dimensão, ao horizonte...

3
Não me venha falar que borboletas
são invenções de deus.
Os homens até podem ser.
Mas borboletas...?!
Só se forem do deus de deus.

4
O sentido das miudezas. As singelezas que atentam os sentidos. Ver a riqueza de uma pequeninice. Sentir a grandeza do que aos olhos, ou aos aromas, ou às contagens, parece bem pequenino. Desenganar os enganos. Pensar grande talvez seja um somatório de boas pequenezas.

5
Bom é assim: se aquecer nas redondezas de um forno a lenha, colocar na fiel panela velha todo o gosto das prosas. Permitir que os ingredientes das histórias se misturem. Mexer bem, até escuta e fala chegar ao ponto: troca. Para temperar, afeto colhido na horta.

6
É tudo muito mais simples
do que se inventou de viver.
Exigências de asfalto e placas,
buzinas de expectativas...
No interior, por exemplo,
quando se dá passagem na estrada de barro
se agradece olhando nos olhos entre janelas.
Psiu! Ouve o passarinho cá do lado!
Existir não é currículo.

Palavras Caminhadas por Cris Ebecken às 09h10
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